Como voar aumenta o risco de trombose venosa profunda?
A Trombose Venosa Profunda (TVP) é uma condição médica grave caracterizada pela formação de coágulos sanguíneos nas veias profundas, mais comumente nas pernas. Embora a TVP possa ocorrer em diversas circunstâncias, a sua associação com viagens aéreas, particularmente voos de longo curso, tem sido tema de considerável interesse académico e médico. Este artigo explora os mecanismos fisiológicos e os fatores ambientais que contribuem para um risco aumentado de TVP durante viagens aéreas, com base em pesquisas atuais e no conhecimento médico.
Compreendendo a trombose venosa profunda
A TVP ocorre quando um coágulo sanguíneo, ou trombo, se forma em uma ou mais veias profundas do corpo, geralmente nas extremidades inferiores. Esses coágulos podem obstruir parcial ou completamente o fluxo sanguíneo. Uma preocupação significativa com a TVP é a possibilidade de uma parte do coágulo se romper, viajar pela corrente sanguínea e se alojar nos pulmões, causando embolia pulmonar (EP). A EP é uma condição com risco de vida que pode prejudicar gravemente a função respiratória e circulatória [1].
O impacto das viagens aéreas no risco de TVP
Viagens de longa distância, definidas como viagens superiores a quatro horas, independentemente do meio de transporte (aéreo, carro, ônibus ou trem), foram identificadas como um fator de risco para TVP. No entanto, muitos dos dados e pesquisas disponíveis concentram-se especificamente nas viagens aéreas [1]. Os principais fatores que contribuem para esse risco aumentado durante os voos são imobilidade prolongada, hipóxia na cabine e desidratação.
Imobilidade prolongada e estase venosa
Um dos contribuintes mais significativos para o risco de TVP durante viagens aéreas é a **imobilidade prolongada**. Os passageiros muitas vezes permanecem sentados em espaços confinados por longos períodos, levando à redução do movimento dos músculos das pernas. Os músculos da panturrilha desempenham um papel crucial no bombeamento do sangue de volta ao coração; sua inatividade resulta em **estase venosa**, uma condição em que o fluxo sanguíneo nas veias diminui. Esse fluxo sanguíneo lento aumenta a probabilidade de formação de coágulos, pois os componentes sanguíneos que contribuem para a coagulação têm mais tempo para se agregar [1].
Hipóxia de cabine e alterações pró-coagulantes
As cabines das aeronaves são normalmente pressurizadas a uma altitude equivalente a 6.000 a 8.000 pés acima do nível do mar. Isso resulta em uma pressão parcial de oxigênio (Po2) mais baixa em comparação ao nível do solo, uma condição conhecida como **hipóxia de cabine**. A pesquisa indica que este ambiente hipóxico moderado pode induzir alterações fisiológicas que promovem a coagulação sanguínea. Níveis mais baixos de oxigênio podem aumentar a atividade pró-coagulante de vários componentes do sangue, incluindo neutrófilos, plaquetas e glóbulos vermelhos. Essas células interagem com células endoteliais ativadas (o revestimento dos vasos sanguíneos), melhorando ainda mais o processo de formação de coágulos [2]. A combinação de Po2 reduzido e pressão atmosférica potencialmente reduzida em grandes altitudes contribui para um ambiente propício ao desenvolvimento de trombos [2].
Desidratação
A desidratação, muitas vezes exacerbada pelo ar seco da cabine e pela ingestão insuficiente de líquidos durante os voos, também pode contribuir para um risco aumentado de TVP. Quando o corpo está desidratado, o volume sanguíneo diminui e o sangue pode tornar-se mais espesso ou mais viscoso. Esse aumento da viscosidade torna o sangue mais propenso à coagulação [1].
Fatores de risco adicionais
Embora as viagens aéreas em si possam elevar o risco de TVP, é importante observar que a maioria dos indivíduos que desenvolve TVP associada a viagens geralmente possui um ou mais fatores de risco pré-existentes. Isso inclui [1]:
- **Idade avançada:** o risco de TVP geralmente aumenta após os 40 anos.
- **Excesso de peso ou obesidade:** O aumento da massa corporal pode impedir o fluxo sanguíneo.
- **Cirurgia ou lesão recente:** principalmente nos três meses anteriores à viagem.
- **Uso de contraceptivos contendo estrogênio ou terapia de reposição hormonal:** Isso pode afetar os mecanismos de coagulação do sangue.
- **Gravidez e período pós-parto:** Até três meses após o parto.
- **Histórico prévio de coágulos sanguíneos:**Indivíduos com histórico pessoal ou familiar correm maior risco.
- **Distúrbios hereditários da coagulação sanguínea:** Predisposições genéticas à hipercoagulabilidade.
- **Câncer ativo ou tratamento recente:** O câncer e seus tratamentos podem aumentar o risco de coagulação.
- **Certas doenças crônicas:** como problemas cardíacos ou pulmonares ou diabetes.
- **Mobilidade limitada:** devido a gesso na perna ou outros fatores.
- **Varizes:** Podem afetar o fluxo sanguíneo venoso.
A interação entre esses fatores de risco individuais e os estressores ambientais das viagens aéreas amplifica significativamente o risco geral de TVP. Portanto, uma compreensão abrangente do risco pessoal é crucial para a implementação de medidas preventivas adequadas.
Conclusão
Voar, especialmente em viagens de longa distância, pode aumentar o risco de trombose venosa profunda devido a uma combinação de imobilidade prolongada que leva à estase venosa, hipóxia na cabine que induz alterações pró-coagulantes e possível desidratação. Embora o risco absoluto para a maioria dos indivíduos saudáveis permaneça baixo, a presença de factores de risco pessoais adicionais pode elevar significativamente este risco. Compreender estes mecanismos é vital tanto para os indivíduos como para os prestadores de cuidados de saúde na avaliação do risco e na implementação de estratégias preventivas, sem constituir aconselhamento médico.
Referências
[1] Compreender o risco de coágulos sanguíneos durante viagens. CDC. [https://www.cdc.gov/blood-clots/risk-factors/travel.html](https://www.cdc.gov/blood-clots/risk-factors/travel.html) [2] Tourn, J., Crescent, L., Bruzzese, L., Panicot-Dubois, L., & Dubois, C. (2025). Mecanismos celulares e moleculares que levam à trombose induzida por viagens aéreas. *Pesquisa de Circulação*, 136(1), 115-134. [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39745986/](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39745986/)
